Wellington Monteiro recorda como negou o Grêmio para formar família no Inter: “Como 2006, não vai ter igual”

Reportagem do Zona Mista entrevistou o ex-volante campeão da Libertadores e do Mundial pelo Inter

Foto: Divulgação/VIPCOMM
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Da proposta melhor do Grêmio à conquista do Mundial pelo Inter. Do perdão a Edinho à frustração pela saída em 2008. Da família formada em 2006 aos elogios a Rodrigo Dourado. Wellington Monteiro, multicampeão pelo Inter e titular no histórico duelo contra o Barcelona, tem muito a falar. E vai fazer o torcedor colorado navegar em grandes lembranças na nova entrevista exclusiva do Zona Mista.

Zona Mista: Há algumas semanas, a final entre Inter x Barcelona passou novamente aqui no Rio Grande do Sul. Relembrando o jogo, em qual momento você sentiu que o Inter seria campeão? 

Wellington Monteiro: Uma das coisas que o nosso grupo tinha era definição. Nós sabíamos o que queríamos e ao mesmo tempo sabíamos que não seria tão fácil. Mas também não tão difícil pela família que a gente tinha. O momento que a gente sentiu que seria campeão mesmo foi quando saímos daqui de Porto Alegre. Sabíamos do nosso potencial. O único que a gente sabia que seria difícil era contra o Al Ahly. Era o primeiro jogo, o jogo da ansiedade, da espera. Então esse jogo a gente sabia que seria difícil, como foi difícil. Se analisarmos direitinho, foi um dos piores jogos da nossa vida. Mas foi o que o Fernandão falou na época: “Jogamos mal, mas vamos ganhar”. E aconteceu exatamente isso. Contra o Barcelona, respeitamos muito. E eles respeitaram o nosso time também. Na realidade, eles sabiam que nós não éramos um América do México. Não. Era completamente diferente. Nosso time era compacto, aguerrido, de qualidade. Com muitas características distintas, por isso nos respeitavam.

ZM: E no gol do Gabiru, lembra a tua exata reação em campo?

WM: A única reação que nós poderíamos ter era aquela de pensar que o gol saiu na hora certa, no momento certo. Uma reação de felicidade imensa e que, claro, acabasse o jogo o mais rápido possível (risos).

ZM: Mas antes de tudo isso, tem a sua chegada ao Inter no início de 2006. É verdade que você recebeu uma proposta melhor financeiramente do Grêmio? Por que escolheu jogar no Inter naquele momento?

WM: Sim, na época quem me tentou primeiro foi o Grêmio. Eu tinha jogado com o Mano Menezes no Caxias. Ele saiu do Caxias e teve a proposta do Grêmio. A primeira coisa que ele fez foi pedir a minha contratação. Até aí tudo bem. Só que no meio do caminho entrou o Inter na parada. E aí você fica muito balançado. O Grêmio veio com uma proposta muito boa. Contrato de dois anos, salário excelente, luvas. O Inter não. Era um contrato de seis meses, salário baixo e com nada na mão. A gente pensou. Sentei com a família, analisei direitinho. E pensei. Por exemplo. Naquela época, eu chegaria no Grêmio jogando porque o Mano já me conhecia. E se eu fosse para o Inter, eu teria que buscar o meu espaço. Ao mesmo tempo, a nossa razão pensou o seguinte: “O Inter está disputando uma Libertadores, e esse é o sonho de todo atleta”. Eu não olhei pro dinheiro. Para o tempo de contrato. Nada disso. Olhei lá na frente e não pensei duas vezes. Fui para o Inter e fiz a melhor escolha da minha vida.

ZM: Naquele time, o seu principal parceiro no meio de campo era o Edinho, que virou um desafeto da torcida do Inter pelas declarações sobre o Grêmio. O que você diria à torcida do Inter? Você, como colorado, perdoaria Edinho?

WM: Sobre o Edinho, bom, vocês viram que ele pediu desculpas, pediu perdão. Eu acho que todo mundo tem direito a ter mais uma chance, mais uma oportunidade. Não custa nada ser misericordioso. Eu tenho certeza que a torcida do Inter é assim. É bem a cara do colorado isso. Na hora a gente fica… não triste. A gente pensa. O porquê disso? Todos nós conhecíamos o Edinho. Uma pessoa fenomenal, um cara espetacular. Mas ele estava passando por situações difíceis na época. Mas é claro que não convém falar aquilo que falou. A situação dele era difícil, familiar, nos clubes. Não é o direito de dizer aquilo. Bom, a gente perdoa sim. A gente perdoa e vamos em frente. Se a gente olhar pra trás, tem muita gente que erra, falha em muita coisa e a gente perdoa com o maior prazer. Sem medo de ser feliz. É aquilo que eu penso. Todo mundo tem o direito de errar, mas também tem o direito de se arrepender. E ele se arrependeu. Isso eu garanto. A gente fala com ele. Ele já falou na imprensa e foi bem claro. Explicou a situação. E foi muito louvável da parte dele. Certeza que o colorado vai perdoar. Mas é aquilo. Aquilo que a gente planta, a gente colhe. Se plantar coisa boa, vem coisa boa. Se plantar coisa ruim, vem coisa ruim. Creio que foi isso que aconteceu com ele. Acontece com todos nós. Nós jogadores perdoamos sim, como eu creio que a torcida colorada, em maioria, perdoa.

ZM: Para descontrair a conversa, o grupo de 2006 do Inter era unido dentro e também fora de campo? Havia muitas brincadeiras e festas? Quem você lembra como o jogador que mais gostava de sair e beber?

WM: Eu vou te falar uma parada. O bom do nosso time… time não. A família, a família que a gente fez e mantém até hoje. Por exemplo. Cada um tinha uma fé, o seu hábito, o seu jeito. Mas o que tínhamos de melhor era o respeito um com outro. Era fundamental. Em termos de sair e beber, preciso dizer? É notório, né? (risos). Mas é a vida dos caras, pô. A gente não pode julgar ninguém. Cada um tem seu jeito. O Perdigão sempre gostou de sair, de beber, como até hoje ele faz. Mas uma coisa é certa. Dentro de campo, meu irmão… todos tinham o seu limite. Isso é notório. Bem centrado, todos, sem exceção. Mas óbvio que tinha quem saía nas folgas. Nem todo mundo. Eu não era disso. Sempre fui centrado, definido naquilo que eu queria. Eu era muito família, e os caras também eram. Mas eu me guardo bastante. Sempre fiz isso. Tive minha época de maluco de 17, 18 anos. Chegou os 21 e eu botei a cabeça no lugar. Vivendo uma vida diferente. Mas eu preciso responder mesmo a tua pergunta? Não tem como falar que não era ele, né? (risos).

ZM: Em 2008, você entendeu que era um fim de ciclo no Inter e quis realmente sair? Houve algum tipo de desentendimento com o Tite?

WM: Eu nunca quis sair do Inter. Isso eu garanto. Aconteceram algumas coisas internamente que eu não gostei. Tive minha parcela de culpa. Não vou dizer que eu que fui injusto. Ou que algumas pessoas foram injustas. Não é isso. Na época, aconteceram coisas que eu não aceitava. Mas eu não tive nada de desentendimento com o Tite. Não foi nada com ele. Foram pessoas que trabalhavam lá dentro. É assim: desde o momento que te falam uma coisa e fazem outra, você fica com um pé atrás. E não confia mais. De 100% da saída, 70% foi culpa minha. Saí por infantilidade, fui infantil. Vou dar um exemplo: na época, os caras não renovaram com o Iarley. Mandaram o Gabiru embora. E mais outros. E tinha um boato que era necessário se desfazer de alguns. Na minha cabeça, eu era o próximo. E, nisso, veio o Fluminense. Não pensei duas vezes. De sair mesmo. Mas não tive desentendimento com o Tite. Nada com ele. E eu também preciso deixar claro que não teve nada a ver com o Internacional e também com o torcedor. Foram duas pessoas que na época trabalhavam lá dentro e que me falaram uma coisa, mas fizeram outra. Só isso. Uma coisa que eu bato na tecla sempre é o seguinte: princípios. E o princípio de um ser humano é o caráter. A partir do momento que a pessoa me mostra que não tem caráter, eu começo a olhar pro outro lado. E não confio mais.

ZM: Para fechar, Wellington. Hoje você se considera um torcedor colorado? O que tem achado do Inter de 2020 do Eduardo Coudet?

WM: Eu posso dizer com muita propriedade. Me considero um torcedor colorado. Mas não por causa dos títulos, que fique bem claro isso. Por causa da essência. Que a torcida passa, que o povo colorado passa. É muita diferença. É um clube diferente. Clube acolhedor, carinhoso, família e isso não tem preço. E uma das coisas que a gente fez naquela época foi uma grande família. E não apenas os jogadores. Tinha a comissão técnica, o Fernando Carvalho era e é um cara fenomenal. Um dos melhores presidentes que eu peguei. As pessoas que trabalham internamente, que muitos não conhecem. Por exemplo: os funcionários. Os faxineiros, os roupeiros, os seguranças. Pessoas que ninguém observa, mas são quem nos dão o suporte e merecem todo o nosso respeito. E o outro é o torcedor colorado, cara. A gente entende o torcedor. Quando ele vaia, depois vai te elogiar. E depois volta a vaia. É assim. Mas a gente tinha sintonia na época. Isso foi uma das coisas que chamou muito a nossa atenção. Repito, uma grande família. Nada contra os grupos do Inter que vieram depois, sem menosprezo, mas uma família como fizemos naquela época o Inter não faz mais não. Pode até fazer uma, mas não igual nem além. Era sintonia total e completa.

ZM: E o Inter do Coudet? 

WM: Tem tudo pra ser o Internacional. Jogadores foram contratados, outros permaneceram para ter uma espinha dorsal. Tudo para fazer um ótimo campeonato e fazer uma nova história. Porque a história do Inter nunca acaba. Não tem ponto final. Ela tem vírgulas, pra sempre ter um recomeço. Pode ter interrogação, um “por que”, uma exclamação, que é certeza, mas a história não acaba. E, no meu ponto de vista, um dos grandes acertos do Inter nesse ano foi ter renovado com o Rodrigo Dourado. Pra mim, um dos volantes mais modernos que existe. Hoje é ele. Tem outros ótimos, mas igual a ele não. Primeiro que é da casa. E segundo que é um garoto exemplar. Joga por música. Não é um volante qualquer. É um volante no estilo… por que não dizer, né? Um estilo Paulo Roberto Falcão. E tu sabe que é difícil jogador falar bem assim do outro, mas não dá pra ter vaidade nem prepotência. A gente tem que ser realista. E o Dourado é diferenciado.

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